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O busílis da biomassa no país

Em Moçambique, 75% dos agregados familiares dependem da energia da biomassa para cozinhar. As estimativas ditam que se utiliza, ​​anualmente, cerca de 16 milhões m3 de floresta para produzir carvão vegetal, com um valor estimado superior a 700 milhões de dólares para a madeira, embora se produza apenas cerca de 300 milhões de dólares no mercado de carvão local (Estratégia de Biomassa (BEST Mozambique – resultados preliminares de 2012).

Em 2011, as cidades com maior ritmo de crescimento em Moçambique – Maputo, Beira e Nampula – consumiram 8 milhões de sacos de carvão vegetal com 60kg cada, fazendo os preços aumentar a uma razão de 200%.

Embora a região norte ainda possua recursos de biomassa abundantes, capazes de satisfazer a procura durante os próximos 25 anos, a região sul, onde vive mais de 30% da população, encontra-se actualmente numa situação crítica. Nessa região cada vez é mais difícil aos agregados familiares sustentarem as suas necessidades em termos de energia de biomassa, sobretudo quando se trata das famílias de baixa renda.

As previsões para Moçambique deixam claro que, mesmo com um investimento real de 2 biliões de dólares até 2020, mais de 60% da população continuará a não ter acesso à rede de energia eléctrica, ficando desse modo dependente da biomassa para satisfazer as suas necessidades energéticas.

Nesse âmbito, sabe-se que as condições de acessibilidade e de produção vêm-se tornando mais difíceis e mais caras, encarecendo também os preços ao consumidor final. Como tal, o investimento em fontes alternativas à biomassa é considerado estratégico no âmbito de uma política energética comprometida com os objetivos do PARPA – Plano de Ação para a Redução da Pobreza Absoluta.

Maputo: um mercado atractivo

Em 2011, foram consumidos em Maputo três milhões de sacos de carvão movimentando um mercado de 70 milhões de dólares.

Do ponto de vista ambiental, o impacto da demanda por carvão em Maputo nas florestas é enorme: A produção de carvão que se destina, actualmente, à cidade percorre cerca de 400 km de distância, enquanto que há 10 anos era produzido na província. Por que motivo tal acontece? Porque não há mais florestas.

Evidentemente que maiores dificuldades em produzir e distribuir o carvão implicam um impacto no preço, elevando-o. Entre 2010 -2012, o preço disparou de 250 meticais por saco de carvão para os actuais 650 meticais, e nada impede que este preço continue a subir. Aliás, os aumentos de preço mais elevados têm sido observados na região sul, sobretudo na província de Maputo.

Embora o carvão em Maputo ainda seja conveniente, no sentido de ser vendido em diversos pontos e em diversas quantidades e a um preço accessível, o consumo mensal por família nas zonas peri-urbanas, varia em torno dos 650 aos 750 meticais por mês.

Este novo patamar de preços e de gasto das famílias de baixa renda, cria uma verdadeira oportunidade de mercado para a introdução de alternativas ao carvão, entre as quais o gás se apresenta como a opção mais indicada e desejada.

De acordo com o estudo realizado recentemente pela SNV, numa parceria com o FUNAE, e o Conselho Municipal da Cidade, no bairro da Mafalala (em Maputo), 63% ou 1.800 famílias já percebem que o gás é uma alternativa ideal para cozinhar. Neste bairro, 30% das famílias já combinam o carvão com o gás, e tudo indica que isto seja uma tendência.

De acordo como o estudo, as famílias que tradicionalmente consomem carvão, hoje teriam condições e desejo verdadeiro de pagar pelo gás, coisa que há apenas poucos anos, seria impensável. O mercado potencial de consumidores de gás hoje na cidade de Maputo, isto é, com capacidade de comprar gás em bases de mercado, situa-se em torno de 100 mil famílias ou 36% dos consumidores de carvão.

Neste contexto, e de acordo com o estudo realizado, transformar pessoas de baixa renda em consumidores de gás não é apenas um grande desafio institucional ou do Governo, mas, sobretudo, uma importante oportunidade de mercado para o sector privado.

A dicotomia entre oferta e demanda

Baseado em informações de mercado recolhidas, compreende-se que actualmente mais de 100 mil famílias em Maputo estão a formar um novo mercado consumidor de gás. Considerando ainda que os gastos dos agregados familiares em energia de biomassa estão a crescer, rapidamente este número tende a aumentar.

De momento, não há um mecanismo bem desenvolvido que forneça gás às famílias de baixo rendimento em zonas peri-urbanas. Na última década, lançaram-se diversos projectos para promover técnicas de cozinha, utilizando fogões eficientes e fontes de energia alternativas. Contudo, estes projectos registaram uma procura reduzida e insuficiente para provocar uma mudança sustentável.

Nos dias que correm, o mercado é completamente diferente, com elevados preços do carvão vegetal, e um gasto médio por família entre os 650 e 750 meticais por mês. Valores que ultrapassam os custos de GLP e de eletricidade pelo que se considera ser este o momento ideal para a introdução de gás, em Maputo.

Do ponto de vista económico, atender à demanda de famílias de baixa renda de Maputo representa além de respeitar o direito a fontes limpas de energia, uma oportunidade de mercado que poderá trazer rentabilidade às empresas que invistam em modelos de negócio inclusivo e dirigidos à base da pirâmide.

Devido à actual estrutura do mercado, focada no segmento da classe média alta e no mercado industrial, a oferta e o sistema de distribuição de gás, em particular, não contemplam o atendimento eficaz às famílias de baixa renda.

As famílias de baixa renda gastam até um terço da sua renda em fontes sujas e precárias de energia, gastam valores proporcionais muito superiores aos que gasta uma família da classe média de Maputo (estimado em 600 meticais por mês).

A situação actual é que não existe, de momento, uma oferta desenhada para os consumidores de baixa renda. Constata-se que enquanto indústrias como as das telecomunicações conseguem alavancar a sua performance atendendo à população de baixa renda, com pacotes acessíveis, e com uma ampla variedade de preços e pontos de venda, no segmento da energia ainda não se exploram estes modelos. É evidente que há poucos anos um esforço neste sentido seria inviável sob o ponto de vista financeiro, mas hoje a realidade é outra e há que explorá-la no bom sentido.

A mudança tecnológica dos consumidores, principalmente pela via da aquisição da botija de gás (3kg/9kg) e do fogão a gás são naturalmente os principais impedimentos, de acordo com o Estudo sobre o mercado do carvão no Bairro da Mafalala da SNV (2012).

O que pode ser feito

A demanda já está sensibilizada, entretanto é possível ampliar o seu conhecimento sobre as vantagens do gás em detrimento do carvão. E é preciso que sejam organizados movimentos de sensibilização.

O segmento de consumidores de baixa renda que já têm capacidade de migrar para o gás, está composto por pelo menos 100 mil famílias e tende a crescer na medida em que, por um lado, o número de empregos e a renda crescem na cidade, assim como o preço do carvão.

Um grande contingente de consumidores de carvão tem condições de sustentar o seu consumo de gás ou combinar o uso de gás com outras fontes de energia. Ou seja, o desafio consiste no desenvolvimento de uma oferta ajustada a este segmento. O desenvolvimento de uma oferta ajustada em termos de: Produto, Preço, Pontos de Venda, Forma de Pagamento e Promoção à realidade dos consumidores da base da pirâmide é o maior desafio que se enfrenta do ponto de vista da oferta.

A questão, no entanto, não é se o sector privado terá condições de atender a este segmento, mas se, de momento, o segmento da base da pirâmide, se encaixará ou não nas estratégias comerciais de empresas distribuidoras de gás. Entretanto, as informações indicam que existe uma demanda emergente e suficientemente robusta para justificar que as empresas de distribuição iniciem “exercícios” no sentido de atender ou fornecer a este segmento.

Federico Vignati da SNV (Organização Holandesa de Desenvolvimento) crê que a distribuição subsidiada de botijas de gás de 3kg, ou mesmo a subvenção das actuais de 9kg, seja um passo importante e refere que maiores detalhes sobre o que pode ser feito deverão resultar do diálogo multisectorial e do desejo de colaboração entre os diversos actores.

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This entry was posted on 8 de Agosto de 2012 by in Uncategorized.

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